Entre a utopia e o improviso: planejamento, poder e realidade no município brasileiro

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Imagem produzida por IA - Copilot, a partir do título do artigo (2026).

Em algum momento da vida pública municipal, quase todo técnico ou gestor já ouviu — ou disse — a frase: “isso é muito utópico”. Ela costuma aparecer quando se fala em planejamento, método, indicadores, metas ou organização racional do trabalho. O argumento é conhecido: os problemas são urgentes, a cidade exige respostas imediatas, e não haveria tempo — nem espaço político — para planos.

Em contraponto, circula com igual força outra máxima, quase um provérbio administrativo: “quem planeja tem futuro; quem não planeja tem destino”. Aqui, o improviso é visto como condenação, e o planejamento surge como condição de sobrevivência institucional.

À primeira vista, trata-se de um conflito entre idealismo e pragmatismo. Mas essa leitura é superficial. O que está em jogo não é a oposição entre pensar e agir, e sim como o poder público lida com o tempo, a incerteza e a responsabilidade. Para aprofundar esse debate, vale recorrer a dois autores separados por séculos, mas unidos por uma preocupação comum: a recusa em aceitar a desordem como algo natural.

De um lado, Thomas More, com sua célebre Utopia. De outro, Carlos Matus, formulador do Planejamento Estratégico Situacional.

No uso corrente, “utópico” tornou-se sinônimo de irrealista, acadêmico ou ingênuo. Curiosamente, essa leitura é quase o oposto da intenção original de Thomas More. Utopia não descreve uma sociedade perfeita para ser copiada, mas constrói um espelho crítico: ao mostrar uma organização social extremamente racional, More expõe, por contraste, a irracionalidade das práticas políticas de seu tempo.

O alvo da crítica não é a falta de esforço, mas a falta de inteligência institucional. Governos que punem em vez de prevenir, que reagem em vez de antecipar, que lidam com consequências sem tocar nas causas. Em termos contemporâneos, More critica aquilo que hoje chamaríamos de gestão reativa.

Sob essa luz, o verdadeiro gesto “utópico” não é planejar, mas acreditar que o improviso permanente pode produzir estabilidade. Quando um ator experiente da política local descarta o planejamento como perda de tempo, ele não está sendo realista no sentido forte; está, muitas vezes, naturalizando um modo de governar que reproduz crises.

Mas More não é ingênuo. A própria Utopia é ambígua. A organização excessivamente racional da ilha levanta dúvidas: até que ponto o planejamento total não sufoca a liberdade? Não elimina o conflito legítimo? Não transforma o governo em uma engrenagem fria?

Essa ambiguidade é essencial. Ela antecipa um problema central da administração moderna: planejamento sem política pode virar tirania técnica. É justamente aqui que a contribuição de Carlos Matus se torna decisiva.

Matus não escreve para sociedades ideais. Escreve para governos pressionados, frágeis, atravessados por interesses, limitações orçamentárias e crises constantes — exatamente como os municípios brasileiros. Sua crítica não é ao planejamento em si, mas ao planejamento normativo, abstrato, importado de contextos estáveis e aplicado como ritual burocrático.

No Planejamento Estratégico Situacional, Matus propõe uma ruptura conceitual: planejar não é desenhar um futuro desejável em abstrato, mas aumentar a capacidade de governar uma situação concreta. Planeja quem decide, quem sofre pressão, quem disputa poder. O plano não elimina o conflito; ele o incorpora.

Para Matus, não existe oposição entre “planejar” e “fazer”. Planejar é uma forma qualificada de fazer. É cálculo estratégico em tempo real, orientado por problemas prioritários, nós críticos e possibilidades reais de ação.

Quando alguém afirma que o planejamento é “utópico”, pode estar certo — se estiver se referindo a planos longos, genéricos, desconectados da capacidade institucional e do jogo político. Esse tipo de planejamento, de fato, fracassa. Mas isso não invalida o planejamento; invalida uma certa ideia ingênua de planejamento.

Por outro lado, a máxima “quem planeja tem futuro; quem não planeja tem destino” ganha densidade quando lida de forma matusiana. Não se trata de prever o futuro, mas de evitar que ele seja imposto pelos outros — crises, órgãos de controle, interesses organizados, agendas externas. O “destino” é a perda de autonomia decisória.

A realidade municipal no Brasil é marcada por urgência crônica, baixa capacidade institucional e alta pressão política. Nesse contexto, não faz sentido propor modelos fechados ou planejamentos totalizantes. Mas faz todo sentido defender mínimos de racionalidade: priorização, definição de problemas estruturantes, coordenação entre setores, aprendizagem com a execução.

More nos lembra que a desordem social não é natural. Matus nos ensina que ela também não desaparece por decreto técnico. Entre a utopia perfeita e o improviso resignado, existe um campo intermediário — o do planejamento possível, situado, político e imperfeito, mas indispensável.

Talvez o maior equívoco do debate seja confundir realismo com resignação. Realista não é quem rejeita o planejamento, mas quem entende seus limites e, ainda assim, insiste nele como instrumento de ampliação do possível.

Chamar o planejamento de utopia pode ser confortável. Mais difícil — e mais responsável — é reconhecer que governar sem algum cálculo estratégico não é pragmatismo, é abdicação.

Entre o “mão na massa” cego e a utopia total, o que está em jogo é algo mais simples e mais exigente: agir hoje sem comprometer amanhã. Isso não é utopia. É, talvez, a forma mais concreta de realismo que a gestão pública pode alcançar.

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