Elogio da Depravação
Tratado sobre a universalidade da turpitude, a banalidade do mal, a precocidade do sadismo e a arquitetura da desconfiança
"Se todos os homens soubessem o que dizem uns dos outros, não haveria quatro amigos no mundo." — Blaise Pascal, Pensamentos
Exórdio: a ilusão da anormalidade
A civilização contemporânea padece de uma mania reconfortante: a sanitarização do mal. Para preservar a ilusão de sua elegância moral, a sociedade construiu um aparato nosológico refinado, encarcerando a perversidade nos limites estritos da psiquiatria. Quando a torpeza irrompe em sua forma mais escancarada, apressamo-nos em carimbar o perpetrador com termos assépticos — psicopata, sociopata, portador de transtorno de personalidade antissocial. O diagnóstico cumpre uma função anestésica: isola o "doente" numa quarentena moral e absolve o restante da espécie. O mal, diz o homem comum a si mesmo enquanto ajusta o espelho retrovisor, é uma anomalia biológica, um curto-circuito neurológico que só acomete os monstros.Que mentira prodigiosa.
Inspirando-nos na audácia de Erasmo de Roterdã — que em seu imortal Elogio da Loucura demonstrou como a insensatez governa os negócios humanos —, cumpre-nos erigir um sóbrio e ácido Elogio da Depravação. Não para celebrá-la sob a ótica ingênua do deleite, mas para reconhecer a sua indispensabilidade arquitetônica. A depravação não é a patologia da mente humana; é a sua constante existencial. Não é o ruído no sistema; é parte do próprio motor da engrenagem social.
Longe de ser prerrogativa dos encarcerados ou dos diagnosticados, o direito ao dolo e à perfídia é exercido com assiduidade e refinamento pelo transeunte mediano, pelo homem de negócios estimado, pelo político condecorado, pelo adolescente "esperto" nas redes e, acima de tudo, pelo execrável "cidadão de bem". A perversidade não habita apenas os porões da aberração; ela toma café da manhã conosco, assina o ponto no escritório e sorri com dentes impecavelmente alvos para o vizinho de corredor.
Advirta-se, desde já, de uma cláusula que o desfecho honrará: o autor destas linhas não reivindica assento na plateia. Este ensaio não escapa da própria tese — e saberemos, ao final, por quê.
I. A liturgia do vício: Perfeição e a celebração da canalhice institucional
A genialidade de Perfeição reside em compreender que a canalhice não é exceção à regra social, mas o seu rito de passagem. A canção não pede a correção dos vícios; pede a sua celebração, justamente porque percebeu que são eles que estruturam de fato a vida coletiva. O país descrito por Renato Russo não é vítima de uma elite malévola isolada, mas de um pacto difuso de mediocridade e torpeza.
A política e o mercado apenas operacionalizam essa liturgia. Maquiavel já advertira em O Príncipe que o governante que deseje conservar o poder deve aprender o artifício de não ser bom. Bernard Mandeville, na Fábula das Abelhas, sugeria que os vícios privados nutrem os benefícios públicos; o capitalismo corporativo levou a intuição ao paroxismo: a demissão em massa é batizada de "reequilíbrio estratégico", a devastação ambiental vira greenwashing, e a predação entre colegas recebe o troféu da "meritocracia". A canção antecipou o escárnio: celebramos a ganância porque nos tornamos incapazes de funcionar sem ela.
II. A precocidade do sadismo: o mito da inocência posto à prova
A prova mais incômoda da universalidade da depravação não reside na vida adulta enrijecida pelo cinismo, mas na sua assustadora precocidade. A modernidade apegou-se ao assim chamado mito rousseauniano da pureza infantil — simplificação, admita-se, do que o Emílio contém de mais sutil, mas simplificação que fez fortuna: a criança nasceria anjo moral e só se corromperia ao contato com a sociedade.William Golding, em O Senhor das Moscas, forneceu a imagem literária definitiva do contrário: meninos civilizados, isolados numa ilha, regredindo à barbárie ritual e ao assassinato. A imagem é poderosa — e é preciso ter a honestidade intelectual de reconhecer que é apenas isso: uma imagem. Ficção não é evidência. Pior: na única ocasião em que o "experimento" de Golding se realizou fora das páginas — o naufrágio de seis adolescentes tonganeses na ilha de 'Ata, em 1965, resgatados quinze meses depois —, os meninos reais cooperaram exemplarmente: dividiram tarefas, mantiveram o fogo aceso, cuidaram de um companheiro com a perna fraturada. Rutger Bregman ergueu sobre esse episódio uma réplica inteira ao pessimismo antropológico. Quem constrói a tese da depravação sobre Golding constrói sobre areia — e merece o desabamento.
O lastro, portanto, deve ser buscado alhures. Não em Freud, ao menos não no lugar-comum: o célebre "perverso polimorfo" dos Três Ensaios designa a plasticidade da pulsão sexual infantil, não a crueldade. Quem escavou de fato o sadismo da primeira infância foi Melanie Klein, ao descrever, na análise de crianças pequenas, fantasias de ataque, despedaçamento e inveja primária que nenhuma pedagogia lhes ensinou. E a psicologia empírica contemporânea confirmou o que Klein intuíra no divã: o estudo de Erin Buckels e colegas (2014) sobre o "sadismo cotidiano" demonstrou, em população geral e não clínica, que o prazer de infligir sofrimento é traço mensurável, distribuído de forma contínua pela espécie — e que é ele, mais do que qualquer outra variável de personalidade, o preditor do comportamento de trolling nas redes. O troll não é um doente raro; é o vizinho no percentil um pouco mais alto de um traço que todos carregamos.
É nesse quadro que se deve ler a tragédia recente da adolescente de treze anos conduzida à própria morte sob o incentivo e a chantagem de uma rede de outros menores, em servidor fechado de plataforma digital. Não como aberração fortuita, mas como revelação anatômica: na penumbra do anonimato, subtraídas a mediação do medo físico e a supervisão adulta, a dor alheia vira espetáculo e a humilhação do vulnerável vira moeda de prestígio grupal. A tecnologia não criou essa depravação; apenas removeu os atritos que a continham. O apetite pelo despedaçamento da psique alheia não é hábito adquirido aos quarenta anos no mercado ou na política; já opera em plena potência na puberdade.
III. O paradoxo da autodomesticação: a agressão de colarinho
Convém, aqui, antecipar a objeção mais respeitável. Frans de Waal batizou de "teoria do verniz" a ideia de que a civilização seria película fina estendida sobre uma fera — e acumulou décadas de primatologia para demonstrar que a empatia, a reconciliação e o senso de equidade são tão naturais em nós quanto a agressão. Tem razão. E a tese deste ensaio não é a do verniz.Richard Wrangham, em O Paradoxo da Bondade, ofereceu a formulação precisa. O ser humano é, entre os primatas, excepcionalmente dócil na agressão reativa — a explosão impulsiva diante da provocação —, resultado provável de um longo processo de autodomesticação da espécie. E é, simultaneamente, o campeão indisputado da agressão proativa: planejada, fria, coalizional, executada sem raiva e com divisão de tarefas. Nosso mal característico não é a fera que rompe o verniz; é a coalizão que calcula. A emboscada, o linchamento organizado, a execução deliberada do desviante — eis a especialidade zoológica do animal humano.
Note-se o alcance da correção: ela não atenua a tese deste ensaio; refina-a. O servidor de adolescentes que orquestra metodicamente a destruição de uma colega e o conselho de administração que planeja a demissão de milhares com cronograma, planilha e assessoria de imprensa não são exceções à nossa mansidão cotidiana; são a nossa agressão característica em pleno funcionamento — colaborativa, premeditada, de colarinho.
IV. A arquitetura do mal ordinário: Arendt corrigida, Browning confirmado
Se a infância expõe a crueldade em estado cru, a vida adulta encarrega-se de anestesiá-la pela burocracia. Ao cobrir o julgamento de Adolf Eichmann em Jerusalém, Hannah Arendt cunhou o conceito de banalidade do mal: diante dela não estava um demônio movido por paixão satânica, mas um funcionário que alegava cumprir ordens, aparentemente incapaz de pensar o que fazia. O mal mais profundo e destrutivo, concluiu a filósofa, não exige motivações extraordinárias — exige apenas a ausência de pensamento (Gedankenlosigkeit); e o verdadeiramente aterrador era que homens assim fossem tantos, e tão "assustadoramente normais".A tese exige hoje uma emenda que, bem lida, a fortalece. Bettina Stangneth, em Eichmann antes de Jerusalém, demonstrou a partir das gravações do círculo de Willem Sassen, na Argentina, que Eichmann não era o autômato cinzento do tribunal: era ideólogo antissemita convicto, orgulhoso do próprio papel na máquina de extermínio, que encenou a banalidade diante dos juízes como estratégia de defesa. Arendt, em certa medida, descreveu menos o réu do que a espécie: errou o retrato do indivíduo e acertou o da multidão. E registre-se a ironia devastadora — a banalidade performada de Eichmann é ela própria o exemplar supremo daquilo que adiante chamaremos de hermenêutica da dissimulação: "eu só cumpria ordens" é o eufemismo-mestre de todo o léxico anestésico.
Para a multidão, a prova empírica definitiva veio de Christopher Browning. Em Homens Comuns, o historiador reconstituiu a trajetória do Batalhão 101 da Polícia de Reserva alemã: não jovens fanatizados por anos de doutrinação, mas reservistas de meia-idade de Hamburgo — operários, comerciantes, pais de família — convertidos, ao longo de 1942, em executores de dezenas de milhares de judeus na Polônia ocupada. O detalhe que transforma o caso em veredito: antes do primeiro massacre, o comandante ofereceu expressamente aos homens a possibilidade de se escusarem. Ao longo de toda a campanha, algo entre dez e vinte por cento recusou-se ou esquivou-se — e não sofreu por isso punição significativa. Os demais mataram. Não sob coação letal, mas por conformidade, carreirismo, medo de parecer covarde diante dos pares.
Eis o achado que nenhuma teoria consoladora digere: a capacidade para o mal é universal e a recusa era possível. A margem de liberdade existia — e foi majoritariamente declinada. Isso não absolve a espécie pela pressão das circunstâncias; agrava-lhe a culpa pela adesão. É essa mesma banalidade que opera, em escala doméstica, no cotidiano do "cidadão de bem": o servidor que nega o atendimento vital por falta de um carimbo, o executivo que assina o despejo sem olhar os despejados, o moderador que ignora o assédio para não comprometer as métricas de engajamento. Nenhum deles acorda querendo ser vil. Apenas cumprem o protocolo — tendo, como os homens de Hamburgo, a recusa ao alcance da mão.
V. O Homo demens e a fúria do subterrâneo
Se Arendt e Browning desnudaram o mal que nasce da renúncia ao juízo, Fiódor Dostoiévski escavou o mal que nasce do excesso de lucidez e da natureza autocontraditória da alma humana. A antropologia dostoievskiana é a antítese do otimismo ingênuo: o homem é um Homo demens, criatura fraturada que frequentemente deseja o mal pelo puro prazer da autossuficiência e da transgressão.Em Memórias do Subsolo, o autor russo apresenta o homem contemporâneo: uma figura que enxerga a virtude, mas reage contra ela com rancor. O ser humano, adverte Dostoiévski, prefere destruir a própria vida a submeter-se à lógica do bem comum:
"O homem gosta de edificar e de abrir caminhos... Mas por que ama também, até à loucura, a destruição e o caos? Dizei-me: haverá algo que ele não ame até à loucura, desde que lhe traga a prova de que é homem, e não uma tecla de piano?" — Fiódor Dostoiévski, Memórias do Subsolo
Dostoiévski compreendeu o que os sociólogos frequentemente ignoram: há na depravação uma volúpia obscura. Raskólnikov, em Crime e Castigo, não mata a velha usurária por necessidade financeira, mas para testar se tem o direito de transgredir as barreiras morais da humanidade. Nietzsche, na Genealogia da Moral, disse-o sem anestesia: ver sofrer faz bem; fazer sofrer, melhor ainda — a crueldade como uma das festas mais antigas da espécie. É essa mesma volúpia que move os adolescentes nos servidores fechados e os adultos nas redes de difamação: o gozo teratológico de sentir-se poderoso através da destruição alheia.
VI. A hermenêutica da dissimulação: Bandura, Girard e o léxico anestésico
O que este ensaio formula como intuição retórica, a psicologia social de Albert Bandura catalogou como teoria com meio século de lastro empírico: os mecanismos de desengajamento moral — a rotulação eufemística, o deslocamento e a difusão da responsabilidade, a comparação vantajosa, a desumanização da vítima — são precisamente as operações pelas quais pessoas comuns cometem o indigno preservando intacta a estima de si. A tábua abaixo, portanto, não é sátira gratuita; é um inventário aplicado de Bandura:
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Termo usado pela sociedade |
O rótulo social |
A realidade da depravação subjacente |
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"Trollagem / brincadeira" |
Infantilismo digital |
Sadismo precoce exercido contra vulneráveis sob o álibi do
humor. |
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"Sinceridade" |
Franqueza militante |
Sadismo verbal exercido com licença de honestidade. |
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"Pragmatismo" |
Maquiavelismo de sarjeta |
Disposição imediata para trair princípios por vantagens
banais. |
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"Cumprimento do dever" |
Banalidade arendtiana |
Isenção moral diante da crueldade burocrática — o
eufemismo-mestre, como Eichmann bem sabia ao encená-lo. |
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"Espírito competitivo" |
Predação corporativa |
Desejo de aniquilação do próximo para compensar a própria
vacuidade. |
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"Cultura do cancelamento" |
Punição comunitária |
Mecanismo do bode expiatório: gozo voyeurístico no
linchamento público do par. |
Essa esgrima vocabular permite que a depravação flua sem solavancos, do servidor de Discord até a reunião de diretoria, amparada por uma linguagem que converte crueldade em "brincadeira" e dolo em "necessidade do sistema".
VII. A prova arquitetônica: instituições como confissão
Chegados a este ponto, o leitor poderia perguntar: e daí? Se a depravação é universal, restaria apenas o cinismo? A resposta é o contrário exato — e constitui, talvez, o argumento mais forte de todo o ensaio, porque não está escrito em livro algum: está construído em pedra, papel e regulamento ao nosso redor.David Hume estabeleceu a máxima: ao desenhar qualquer sistema de governo, todo homem deve ser suposto um velhaco. Madison, no Federalista n.º 51, deu-lhe a forma lapidar: se os homens fossem anjos, nenhum governo seria necessário. E Judith Shklar, no século XX, extraiu a consequência ética: o liberalismo digno do nome é o "liberalismo do medo" — aquele que põe a crueldade, e não a heresia ou o pecado, em primeiro lugar na lista dos vícios, e organiza toda a arquitetura pública para contê-la.
Ora, olhe-se em volta. Fechaduras, auditorias, contratos com cláusula penal, tribunais de contas, freios e contrapesos, dupla custódia, câmeras, conselhos de ética, controle externo. Adam Smith observou que não é da benevolência do açougueiro que esperamos o jantar, mas do seu interesse próprio; a vigilância sanitária existe porque nem do interesse próprio se pode esperar que o jantar não nos mate. Cada carimbo, cada inspeção, cada exigência de licença é uma pequena confissão civilizacional: nunca acreditamos, de fato, na bondade espontânea de ninguém — e fizemos muito bem.
A civilização, portanto, não refuta a tese deste ensaio; ela é a sua prova arquitetônica. Uma espécie que precisasse conter apenas monstros raros teria construído jaulas raras. Nós construímos um mundo inteiro de jaulas recíprocas e demos a isso o nome de Estado de Direito. O escândalo não é a desconfiança institucionalizada; o escândalo seria a ingenuidade de dispensá-la. Levar a depravação a sério não conduz ao niilismo: conduz ao desenho de instituições — e ao reconhecimento, nada lisonjeiro, de que não sabemos viver sem elas.
Peroração: o espelho e a confissão
O desenho original desta peroração continha uma armadilha: declarar que o leitor que negasse a própria depravação estaria, por isso mesmo, a prová-la. Renuncio ao artifício. Uma tese que se confirma tanto pelo assentimento quanto pela recusa não é uma tese; é um espelho deformante, irrefutável por construção e, precisamente por isso, sem valor.Em seu lugar, uma confissão. Nietzsche sabia que o psicólogo penetrante goza no ato de desmascarar; que há crueldade no próprio conhecimento, volúpia no bisturi. Pois bem: este ensaio é exercício da depravação que anatomiza. Houve prazer — prazer nada inocente — em compilar este inventário de misérias, em rebaixar o "cidadão de bem", em antecipar o incômodo do leitor. O autor não escreve do alto de um observatório neutro; escreve de dentro do subsolo, com a lanterna numa mão e, na outra, o mesmo gosto pelo espetáculo da queda alheia que atribui aos demais. Se o leitor sentiu, em alguma página, o pequeno deleite de reconhecer no retrato o vizinho, o chefe ou o cunhado — sem jamais reconhecer-se a si —, então fomos cúmplices no mesmo gozo. E se se reconheceu: bem-vindo. A lucidez não absolve; apenas ilumina a cela.
Não precisamos de aberrações genéticas nem de patologias raras para explicar o mal. A síntese de Klein e Buckels, de Wrangham, de Arendt emendada por Stangneth, de Browning, de Dostoiévski e de Renato Russo entrega o quadro definitivo: o mal flutua entre a crueldade crua da infância sem freios, a coalizão fria que planeja sem raiva, a inconsciência confortável do burocrata que podia recusar e não recusou, a volúpia sombria do homem do subterrâneo e a liturgia hipócrita da sociedade que celebra os próprios vícios com eufemismos na boca.
A depravação é a nossa herança mais democrática e precoce. Não escolhe idade, classe social, nível de instrução ou credo. Habita a criança que grava a tortura do colega, o acadêmico erudito que destrói a reputação dos pares, o idoso respeitável que destila rancor no seio familiar — e o ensaísta que os cataloga a todos com indisfarçável apetite.
Eis o nosso verdadeiro e incômodo retrato: não somos anjos decaídos lutando para retornar ao céu, nem máquinas biológicas rumo ao progresso moral ilimitado. Somos Homo demens — e as muralhas que erguemos contra nós mesmos não são redenção; são atestado. O guarda que vigia a cela e o preso que a habita têm o mesmo rosto. A instituição contém o canalha, mas não o cura — e é administrada, afinal, por canalhas de crachá. Não há progresso moral no horizonte; há apenas contenção perpétua: o trabalho de Sísifo de trancar, todas as noites, uma porta que nós mesmos tentaremos arrombar pela manhã.
Celebremos, pois, com a ironia de Renato Russo e o ácido do desespero, o Elogio da Depravação. Pois enquanto continuarmos a fingir que a perversidade é exclusividade dos loucos e dos doentes, continuaremos a ser governados, educados, servidos, entretidos e abraçados pelos mais perfeitos, dissimulados e impiedosos canalhas: nós mesmos.
