Elogio da Depravação

Tratado sobre a universalidade da turpitude, a banalidade do mal, a precocidade do sadismo e a arquitetura da desconfiança

"Se todos os homens soubessem o que dizem uns dos outros, não haveria quatro amigos no mundo." — Blaise Pascal, Pensamentos

Exórdio: a ilusão da anormalidade

A civilização contemporânea padece de uma mania reconfortante: a sanitarização do mal. Para preservar a ilusão de sua elegância moral, a sociedade construiu um aparato nosológico refinado, encarcerando a perversidade nos limites estritos da psiquiatria. Quando a torpeza irrompe em sua forma mais escancarada, apressamo-nos em carimbar o perpetrador com termos assépticos — psicopata, sociopata, portador de transtorno de personalidade antissocial. O diagnóstico cumpre uma função anestésica: isola o "doente" numa quarentena moral e absolve o restante da espécie. O mal, diz o homem comum a si mesmo enquanto ajusta o espelho retrovisor, é uma anomalia biológica, um curto-circuito neurológico que só acomete os monstros.

Que mentira prodigiosa.

Inspirando-nos na audácia de Erasmo de Roterdã — que em seu imortal Elogio da Loucura demonstrou como a insensatez governa os negócios humanos —, cumpre-nos erigir um sóbrio e ácido Elogio da Depravação. Não para celebrá-la sob a ótica ingênua do deleite, mas para reconhecer a sua indispensabilidade arquitetônica. A depravação não é a patologia da mente humana; é a sua constante existencial. Não é o ruído no sistema; é parte do próprio motor da engrenagem social.

Longe de ser prerrogativa dos encarcerados ou dos diagnosticados, o direito ao dolo e à perfídia é exercido com assiduidade e refinamento pelo transeunte mediano, pelo homem de negócios estimado, pelo político condecorado, pelo adolescente "esperto" nas redes e, acima de tudo, pelo execrável "cidadão de bem". A perversidade não habita apenas os porões da aberração; ela toma café da manhã conosco, assina o ponto no escritório e sorri com dentes impecavelmente alvos para o vizinho de corredor.

Advirta-se, desde já, de uma cláusula que o desfecho honrará: o autor destas linhas não reivindica assento na plateia. Este ensaio não escapa da própria tese — e saberemos, ao final, por quê.

A Entrada de Cristo em Bruxelas em 1889 | full image
A celebração como retrato: Ensor pintou a liturgia da canalhice sessenta anos antes de Arendt lhe dar nome. James Ensor, A Entrada de Cristo em Bruxelas em 1889, 1888. Óleo sobre tela. The J. Paul Getty Museum, Los Angeles. Domínio público (Getty Open Content Program).

I. A liturgia do vício: Perfeição e a celebração da canalhice institucional

Se buscarmos na cultura brasileira um diagnóstico poético e impiedoso dessa engrenagem, o encontraremos em Renato Russo. Em Perfeição, gravada pela Legião Urbana, o compositor ergue um monumento de acidez moral: a canção arma-se como uma ladainha às avessas, uma falsa cantiga de louvor que, em vez de rogar a emenda dos vícios nacionais, convoca o ouvinte a festejá-los — a estupidez coletiva, a inveja, a vaidade, a ganância, a hipocrisia consagrada, a violência de ontem e a de sempre.

A genialidade de Perfeição reside em compreender que a canalhice não é exceção à regra social, mas o seu rito de passagem. A canção não pede a correção dos vícios; pede a sua celebração, justamente porque percebeu que são eles que estruturam de fato a vida coletiva. O país descrito por Renato Russo não é vítima de uma elite malévola isolada, mas de um pacto difuso de mediocridade e torpeza.

A política e o mercado apenas operacionalizam essa liturgia. Maquiavel já advertira em O Príncipe que o governante que deseje conservar o poder deve aprender o artifício de não ser bom. Bernard Mandeville, na Fábula das Abelhas, sugeria que os vícios privados nutrem os benefícios públicos; o capitalismo corporativo levou a intuição ao paroxismo: a demissão em massa é batizada de "reequilíbrio estratégico", a devastação ambiental vira greenwashing, e a predação entre colegas recebe o troféu da "meritocracia". A canção antecipou o escárnio: celebramos a ganância porque nos tornamos incapazes de funcionar sem ela.

II. A precocidade do sadismo: o mito da inocência posto à prova

A prova mais incômoda da universalidade da depravação não reside na vida adulta enrijecida pelo cinismo, mas na sua assustadora precocidade. A modernidade apegou-se ao assim chamado mito rousseauniano da pureza infantil — simplificação, admita-se, do que o Emílio contém de mais sutil, mas simplificação que fez fortuna: a criança nasceria anjo moral e só se corromperia ao contato com a sociedade.

William Golding, em O Senhor das Moscas, forneceu a imagem literária definitiva do contrário: meninos civilizados, isolados numa ilha, regredindo à barbárie ritual e ao assassinato. A imagem é poderosa — e é preciso ter a honestidade intelectual de reconhecer que é apenas isso: uma imagem. Ficção não é evidência. Pior: na única ocasião em que o "experimento" de Golding se realizou fora das páginas — o naufrágio de seis adolescentes tonganeses na ilha de 'Ata, em 1965, resgatados quinze meses depois —, os meninos reais cooperaram exemplarmente: dividiram tarefas, mantiveram o fogo aceso, cuidaram de um companheiro com a perna fraturada. Rutger Bregman ergueu sobre esse episódio uma réplica inteira ao pessimismo antropológico. Quem constrói a tese da depravação sobre Golding constrói sobre areia — e merece o desabamento.

O lastro, portanto, deve ser buscado alhures. Não em Freud, ao menos não no lugar-comum: o célebre "perverso polimorfo" dos Três Ensaios designa a plasticidade da pulsão sexual infantil, não a crueldade. Quem escavou de fato o sadismo da primeira infância foi Melanie Klein, ao descrever, na análise de crianças pequenas, fantasias de ataque, despedaçamento e inveja primária que nenhuma pedagogia lhes ensinou. E a psicologia empírica contemporânea confirmou o que Klein intuíra no divã: o estudo de Erin Buckels e colegas (2014) sobre o "sadismo cotidiano" demonstrou, em população geral e não clínica, que o prazer de infligir sofrimento é traço mensurável, distribuído de forma contínua pela espécie — e que é ele, mais do que qualquer outra variável de personalidade, o preditor do comportamento de trolling nas redes. O troll não é um doente raro; é o vizinho no percentil um pouco mais alto de um traço que todos carregamos.

É nesse quadro que se deve ler a tragédia recente da adolescente de treze anos conduzida à própria morte sob o incentivo e a chantagem de uma rede de outros menores, em servidor fechado de plataforma digital. Não como aberração fortuita, mas como revelação anatômica: na penumbra do anonimato, subtraídas a mediação do medo físico e a supervisão adulta, a dor alheia vira espetáculo e a humilhação do vulnerável vira moeda de prestígio grupal. A tecnologia não criou essa depravação; apenas removeu os atritos que a continham. O apetite pelo despedaçamento da psique alheia não é hábito adquirido aos quarenta anos no mercado ou na política; já opera em plena potência na puberdade.
 

III. O paradoxo da autodomesticação: a agressão de colarinho

Convém, aqui, antecipar a objeção mais respeitável. Frans de Waal batizou de "teoria do verniz" a ideia de que a civilização seria película fina estendida sobre uma fera — e acumulou décadas de primatologia para demonstrar que a empatia, a reconciliação e o senso de equidade são tão naturais em nós quanto a agressão. Tem razão. E a tese deste ensaio não é a do verniz.

Richard Wrangham, em O Paradoxo da Bondade, ofereceu a formulação precisa. O ser humano é, entre os primatas, excepcionalmente dócil na agressão reativa — a explosão impulsiva diante da provocação —, resultado provável de um longo processo de autodomesticação da espécie. E é, simultaneamente, o campeão indisputado da agressão proativa: planejada, fria, coalizional, executada sem raiva e com divisão de tarefas. Nosso mal característico não é a fera que rompe o verniz; é a coalizão que calcula. A emboscada, o linchamento organizado, a execução deliberada do desviante — eis a especialidade zoológica do animal humano.

Note-se o alcance da correção: ela não atenua a tese deste ensaio; refina-a. O servidor de adolescentes que orquestra metodicamente a destruição de uma colega e o conselho de administração que planeja a demissão de milhares com cronograma, planilha e assessoria de imprensa não são exceções à nossa mansidão cotidiana; são a nossa agressão característica em pleno funcionamento — colaborativa, premeditada, de colarinho.

IV. A arquitetura do mal ordinário: Arendt corrigida, Browning confirmado

Se a infância expõe a crueldade em estado cru, a vida adulta encarrega-se de anestesiá-la pela burocracia. Ao cobrir o julgamento de Adolf Eichmann em Jerusalém, Hannah Arendt cunhou o conceito de banalidade do mal: diante dela não estava um demônio movido por paixão satânica, mas um funcionário que alegava cumprir ordens, aparentemente incapaz de pensar o que fazia. O mal mais profundo e destrutivo, concluiu a filósofa, não exige motivações extraordinárias — exige apenas a ausência de pensamento (Gedankenlosigkeit); e o verdadeiramente aterrador era que homens assim fossem tantos, e tão "assustadoramente normais".

A tese exige hoje uma emenda que, bem lida, a fortalece. Bettina Stangneth, em Eichmann antes de Jerusalém, demonstrou a partir das gravações do círculo de Willem Sassen, na Argentina, que Eichmann não era o autômato cinzento do tribunal: era ideólogo antissemita convicto, orgulhoso do próprio papel na máquina de extermínio, que encenou a banalidade diante dos juízes como estratégia de defesa. Arendt, em certa medida, descreveu menos o réu do que a espécie: errou o retrato do indivíduo e acertou o da multidão. E registre-se a ironia devastadora — a banalidade performada de Eichmann é ela própria o exemplar supremo daquilo que adiante chamaremos de hermenêutica da dissimulação: "eu só cumpria ordens" é o eufemismo-mestre de todo o léxico anestésico.

Para a multidão, a prova empírica definitiva veio de Christopher Browning. Em Homens Comuns, o historiador reconstituiu a trajetória do Batalhão 101 da Polícia de Reserva alemã: não jovens fanatizados por anos de doutrinação, mas reservistas de meia-idade de Hamburgo — operários, comerciantes, pais de família — convertidos, ao longo de 1942, em executores de dezenas de milhares de judeus na Polônia ocupada. O detalhe que transforma o caso em veredito: antes do primeiro massacre, o comandante ofereceu expressamente aos homens a possibilidade de se escusarem. Ao longo de toda a campanha, algo entre dez e vinte por cento recusou-se ou esquivou-se — e não sofreu por isso punição significativa. Os demais mataram. Não sob coação letal, mas por conformidade, carreirismo, medo de parecer covarde diante dos pares.

Eis o achado que nenhuma teoria consoladora digere: a capacidade para o mal é universal e a recusa era possível. A margem de liberdade existia — e foi majoritariamente declinada. Isso não absolve a espécie pela pressão das circunstâncias; agrava-lhe a culpa pela adesão. É essa mesma banalidade que opera, em escala doméstica, no cotidiano do "cidadão de bem": o servidor que nega o atendimento vital por falta de um carimbo, o executivo que assina o despejo sem olhar os despejados, o moderador que ignora o assédio para não comprometer as métricas de engajamento. Nenhum deles acorda querendo ser vil. Apenas cumprem o protocolo — tendo, como os homens de Hamburgo, a recusa ao alcance da mão.
 

V. O Homo demens e a fúria do subterrâneo

Se Arendt e Browning desnudaram o mal que nasce da renúncia ao juízo, Fiódor Dostoiévski escavou o mal que nasce do excesso de lucidez e da natureza autocontraditória da alma humana. A antropologia dostoievskiana é a antítese do otimismo ingênuo: o homem é um Homo demens, criatura fraturada que frequentemente deseja o mal pelo puro prazer da autossuficiência e da transgressão.

Em Memórias do Subsolo, o autor russo apresenta o homem contemporâneo: uma figura que enxerga a virtude, mas reage contra ela com rancor. O ser humano, adverte Dostoiévski, prefere destruir a própria vida a submeter-se à lógica do bem comum:
"O homem gosta de edificar e de abrir caminhos... Mas por que ama também, até à loucura, a destruição e o caos? Dizei-me: haverá algo que ele não ame até à loucura, desde que lhe traga a prova de que é homem, e não uma tecla de piano?" — Fiódor Dostoiévski, Memórias do Subsolo

Dostoiévski compreendeu o que os sociólogos frequentemente ignoram: há na depravação uma volúpia obscura. Raskólnikov, em Crime e Castigo, não mata a velha usurária por necessidade financeira, mas para testar se tem o direito de transgredir as barreiras morais da humanidade. Nietzsche, na Genealogia da Moral, disse-o sem anestesia: ver sofrer faz bem; fazer sofrer, melhor ainda — a crueldade como uma das festas mais antigas da espécie. É essa mesma volúpia que move os adolescentes nos servidores fechados e os adultos nas redes de difamação: o gozo teratológico de sentir-se poderoso através da destruição alheia.

VI. A hermenêutica da dissimulação: Bandura, Girard e o léxico anestésico

Para que a depravação prospere em todas as idades sem destruir a frágil autoimagem de "alma pura", a linguagem desenvolveu uma semântica da dissimulação. A perversidade raramente se apresenta nua; exige o concurso do eufemismo.

O que este ensaio formula como intuição retórica, a psicologia social de Albert Bandura catalogou como teoria com meio século de lastro empírico: os mecanismos de desengajamento moral — a rotulação eufemística, o deslocamento e a difusão da responsabilidade, a comparação vantajosa, a desumanização da vítima — são precisamente as operações pelas quais pessoas comuns cometem o indigno preservando intacta a estima de si. A tábua abaixo, portanto, não é sátira gratuita; é um inventário aplicado de Bandura:

Termo usado pela sociedade

O rótulo social

A realidade da depravação subjacente

"Trollagem / brincadeira"

Infantilismo digital

Sadismo precoce exercido contra vulneráveis sob o álibi do humor.

"Sinceridade"

Franqueza militante

Sadismo verbal exercido com licença de honestidade.

"Pragmatismo"

Maquiavelismo de sarjeta

Disposição imediata para trair princípios por vantagens banais.

"Cumprimento do dever"

Banalidade arendtiana

Isenção moral diante da crueldade burocrática — o eufemismo-mestre, como Eichmann bem sabia ao encená-lo.

"Espírito competitivo"

Predação corporativa

Desejo de aniquilação do próximo para compensar a própria vacuidade.

"Cultura do cancelamento"

Punição comunitária

Mecanismo do bode expiatório: gozo voyeurístico no linchamento público do par.

A última linha merece demora, pois carrega uma genealogia que René Girard passou a vida a descrever: a comunidade em crise resolve suas tensões internas convergindo unanimemente sobre uma vítima, e o linchamento produz, como subproduto, a coesão dos linchadores. O "cancelamento" contemporâneo não é invenção das redes; é o rito sacrificial mais antigo do mundo, agora com métricas de engajamento. A multidão que destrói uma reputação em praça digital experimenta exatamente a comunhão que Girard identificou nos apedrejamentos arcaicos: a unanimidade violenta como cimento social.

Essa esgrima vocabular permite que a depravação flua sem solavancos, do servidor de Discord até a reunião de diretoria, amparada por uma linguagem que converte crueldade em "brincadeira" e dolo em "necessidade do sistema".
 

VII. A prova arquitetônica: instituições como confissão

Chegados a este ponto, o leitor poderia perguntar: e daí? Se a depravação é universal, restaria apenas o cinismo? A resposta é o contrário exato — e constitui, talvez, o argumento mais forte de todo o ensaio, porque não está escrito em livro algum: está construído em pedra, papel e regulamento ao nosso redor.

David Hume estabeleceu a máxima: ao desenhar qualquer sistema de governo, todo homem deve ser suposto um velhaco. Madison, no Federalista n.º 51, deu-lhe a forma lapidar: se os homens fossem anjos, nenhum governo seria necessário. E Judith Shklar, no século XX, extraiu a consequência ética: o liberalismo digno do nome é o "liberalismo do medo" — aquele que põe a crueldade, e não a heresia ou o pecado, em primeiro lugar na lista dos vícios, e organiza toda a arquitetura pública para contê-la.

Ora, olhe-se em volta. Fechaduras, auditorias, contratos com cláusula penal, tribunais de contas, freios e contrapesos, dupla custódia, câmeras, conselhos de ética, controle externo. Adam Smith observou que não é da benevolência do açougueiro que esperamos o jantar, mas do seu interesse próprio; a vigilância sanitária existe porque nem do interesse próprio se pode esperar que o jantar não nos mate. Cada carimbo, cada inspeção, cada exigência de licença é uma pequena confissão civilizacional: nunca acreditamos, de fato, na bondade espontânea de ninguém — e fizemos muito bem.

A civilização, portanto, não refuta a tese deste ensaio; ela é a sua prova arquitetônica. Uma espécie que precisasse conter apenas monstros raros teria construído jaulas raras. Nós construímos um mundo inteiro de jaulas recíprocas e demos a isso o nome de Estado de Direito. O escândalo não é a desconfiança institucionalizada; o escândalo seria a ingenuidade de dispensá-la. Levar a depravação a sério não conduz ao niilismo: conduz ao desenho de instituições — e ao reconhecimento, nada lisonjeiro, de que não sabemos viver sem elas.
 

Peroração: o espelho e a confissão

O desenho original desta peroração continha uma armadilha: declarar que o leitor que negasse a própria depravação estaria, por isso mesmo, a prová-la. Renuncio ao artifício. Uma tese que se confirma tanto pelo assentimento quanto pela recusa não é uma tese; é um espelho deformante, irrefutável por construção e, precisamente por isso, sem valor.

Em seu lugar, uma confissão. Nietzsche sabia que o psicólogo penetrante goza no ato de desmascarar; que há crueldade no próprio conhecimento, volúpia no bisturi. Pois bem: este ensaio é exercício da depravação que anatomiza. Houve prazer — prazer nada inocente — em compilar este inventário de misérias, em rebaixar o "cidadão de bem", em antecipar o incômodo do leitor. O autor não escreve do alto de um observatório neutro; escreve de dentro do subsolo, com a lanterna numa mão e, na outra, o mesmo gosto pelo espetáculo da queda alheia que atribui aos demais. Se o leitor sentiu, em alguma página, o pequeno deleite de reconhecer no retrato o vizinho, o chefe ou o cunhado — sem jamais reconhecer-se a si —, então fomos cúmplices no mesmo gozo. E se se reconheceu: bem-vindo. A lucidez não absolve; apenas ilumina a cela.

Não precisamos de aberrações genéticas nem de patologias raras para explicar o mal. A síntese de Klein e Buckels, de Wrangham, de Arendt emendada por Stangneth, de Browning, de Dostoiévski e de Renato Russo entrega o quadro definitivo: o mal flutua entre a crueldade crua da infância sem freios, a coalizão fria que planeja sem raiva, a inconsciência confortável do burocrata que podia recusar e não recusou, a volúpia sombria do homem do subterrâneo e a liturgia hipócrita da sociedade que celebra os próprios vícios com eufemismos na boca.

A depravação é a nossa herança mais democrática e precoce. Não escolhe idade, classe social, nível de instrução ou credo. Habita a criança que grava a tortura do colega, o acadêmico erudito que destrói a reputação dos pares, o idoso respeitável que destila rancor no seio familiar — e o ensaísta que os cataloga a todos com indisfarçável apetite.

Eis o nosso verdadeiro e incômodo retrato: não somos anjos decaídos lutando para retornar ao céu, nem máquinas biológicas rumo ao progresso moral ilimitado. Somos Homo demens — e as muralhas que erguemos contra nós mesmos não são redenção; são atestado. O guarda que vigia a cela e o preso que a habita têm o mesmo rosto. A instituição contém o canalha, mas não o cura — e é administrada, afinal, por canalhas de crachá. Não há progresso moral no horizonte; há apenas contenção perpétua: o trabalho de Sísifo de trancar, todas as noites, uma porta que nós mesmos tentaremos arrombar pela manhã.

Celebremos, pois, com a ironia de Renato Russo e o ácido do desespero, o Elogio da Depravação. Pois enquanto continuarmos a fingir que a perversidade é exclusividade dos loucos e dos doentes, continuaremos a ser governados, educados, servidos, entretidos e abraçados pelos mais perfeitos, dissimulados e impiedosos canalhas: nós mesmos.