A bactéria da opinião — ou: o idiota digital e o caso Ypê

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Os gregos antigos, que costumavam ter uma palavra precisa para cada desvio de caráter, chamavam de idiōtēs o sujeito que vivia fechado em seu mundo particular (idios). Para o cidadão de Atenas, a recusa em participar da polis não era um sinal de discrição, mas uma deficiência de virtude. O idiota era o homem incompleto.

Avançamos dois milênios e meio e o cenário inverteu-se de forma irônica. O idiōtēs moderno não é mais aquele que se cala; é aquele que não para de gritar. Ele abandonou a clausura doméstica para ocupar a ágora digital, mas o fez sem abandonar o seu pendor para o privado. Ele não entrou na política; ele apenas privatizou a esfera pública com seus humores, preconceitos e uma boa dose de analfabetismo científico.

Essa jornada rumo à imbecilidade coletiva — para usar o termo caro a Umberto Eco — encontra no ativismo de redes sociais seu habitat perfeito. O algoritmo, essa entidade que premia a reatividade em detrimento da reflexão, opera como uma seleção natural às avessas: sobrevive o grito mais agudo, não o argumento mais sólido. É o triunfo do viés de confirmação sobre a dúvida metódica.

O caso recente da interdição de lotes dos detergentes Ypê pela Anvisa é um laboratório fascinante dessa patologia. Diante de uma decisão técnica, fundamentada no risco microbiológico — algo que não se vê a olho nu, mas que pode colapsar sistemas de saúde —, o idiota digital reage com a única ferramenta que possui: a anedota pessoal. "Eu sempre usei e nunca morri" torna-se, na cabeça do ativista de teclado, uma prova epistemológica superior a qualquer laudo laboratorial.

Aqui, a idiotia revela sua face mais perversa: a incapacidade de compreender a mediação técnica. Quando o cidadão se torna um "advogado de marca" e ataca o poder de polícia sanitária em nome de uma lealdade comercial ou de uma birra ideológica, ele está agindo contra a própria sobrevivência.

É uma forma de insanidade funcional. O sujeito vive em uma sociedade complexa, usufrui das seguranças de um Estado regulador, mas recusa-se a aceitar a autoridade do fato. Ele quer o detergente, mas não quer a inspeção.

O resultado é um espaço público poluído por monólogos agressivos, onde a autoridade técnica é lida como conspiração e a ignorância é exibida como medalha de coragem. O antigo idiōtēs era apenas um homem irrelevante para a cidade; o idiota contemporâneo, armado com um smartphone e uma conexão de fibra óptica, tornou-se um risco sanitário.

No fim das contas, a bactéria que a vigilância tenta combater nos frascos de detergente talvez seja menos perigosa do que o vírus da autossuficiência intelectual que infectou a nossa comunicação. Contra a primeira, basta uma interdição; contra a segunda, ainda não inventamos o desinfetante eficaz.


A interdição de lotes dos detergentes Ypê pela Anvisa ocorreu em maio de 2026, por contaminação microbiológica identificada em inspeção de rotina.

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