A bactéria da opinião — ou: o idiota digital e o caso Ypê
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Avançamos dois milênios e meio e o cenário inverteu-se de
forma irônica. O idiōtēs moderno não é mais aquele que se cala; é aquele
que não para de gritar. Ele abandonou a clausura doméstica para ocupar a ágora
digital, mas o fez sem abandonar o seu pendor para o privado. Ele não entrou na
política; ele apenas privatizou a esfera pública com seus humores, preconceitos
e uma boa dose de analfabetismo científico.
Essa jornada rumo à imbecilidade coletiva — para usar o
termo caro a Umberto Eco — encontra no ativismo de redes sociais seu habitat
perfeito. O algoritmo, essa entidade que premia a reatividade em detrimento da
reflexão, opera como uma seleção natural às avessas: sobrevive o grito mais
agudo, não o argumento mais sólido. É o triunfo do viés de confirmação sobre a
dúvida metódica.
O caso recente da interdição de lotes dos detergentes Ypê
pela Anvisa é um laboratório fascinante dessa patologia. Diante de uma decisão
técnica, fundamentada no risco microbiológico — algo que não se vê a olho nu,
mas que pode colapsar sistemas de saúde —, o idiota digital reage com a única
ferramenta que possui: a anedota pessoal. "Eu sempre usei e nunca
morri" torna-se, na cabeça do ativista de teclado, uma prova
epistemológica superior a qualquer laudo laboratorial.
Aqui, a idiotia revela sua face mais perversa: a
incapacidade de compreender a mediação técnica. Quando o cidadão se torna um
"advogado de marca" e ataca o poder de polícia sanitária em nome de
uma lealdade comercial ou de uma birra ideológica, ele está agindo contra a
própria sobrevivência.
É uma forma de insanidade funcional. O sujeito vive em uma
sociedade complexa, usufrui das seguranças de um Estado regulador, mas
recusa-se a aceitar a autoridade do fato. Ele quer o detergente, mas não quer a
inspeção.
O resultado é um espaço público poluído por monólogos
agressivos, onde a autoridade técnica é lida como conspiração e a ignorância é
exibida como medalha de coragem. O antigo idiōtēs era apenas um homem
irrelevante para a cidade; o idiota contemporâneo, armado com um smartphone e
uma conexão de fibra óptica, tornou-se um risco sanitário.
No fim das contas, a bactéria que a vigilância tenta
combater nos frascos de detergente talvez seja menos perigosa do que o vírus da
autossuficiência intelectual que infectou a nossa comunicação. Contra a
primeira, basta uma interdição; contra a segunda, ainda não inventamos o
desinfetante eficaz.

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