Heróis de ninguém, sabedoria de lugar nenhum

Uma canção do Rush e a arte de encontrar verdade fora dos holofotes.

Em meu texto anterior, explorei a ideia — emprestada de um verso do Rush — de que a civilidade tem preço, mas não deve ser contabilizada como investimento. Pagar o preço sem contar o custo: eis a postura do cidadão que para no sinal vermelho quando ninguém está olhando, não porque espera retorno, mas porque entende que regras compartilhadas são o que separa uma sociedade de um salve-se-quem-puder permanente.

Agora quero puxar o fio pelo outro lado. Se aquele texto respondia ao como agir, este tenta responder ao onde aprender. E a resposta, adianto, vai desagradar a quem tem a estante cheia de best-sellers.

A canção que serve de ponto de partida desta vez é Nobody’s Hero, do álbum Counterparts (1993). A letra de Neil Peart nasceu de duas mortes reais: a de um amigo gay que morreu em decorrência de complicações do vírus HIV e a de uma jovem assassinada pela violência aleatória de uma grande cidade. Nenhum dos dois virou manchete duradoura, símbolo de causa ou tema de documentário. Viveram com integridade, foram embora, e o mundo seguiu como se nada tivesse acontecido.

Peart não os chora. Ele os reivindica.

A pergunta que a canção coloca, nas entrelinhas, é incômoda: por que precisamos transformar virtude em espetáculo para reconhecê-la como tal? Por que a dignidade só conta quando tem holofote?

A resposta mais honesta é que o culto ao herói midiático — o empresário visionário, o guru de TED Talk, o político redentor, o autor de best-seller com método infalível — cumpre uma função psicológica muito conveniente. Ele concentra uma suposta excelência em poucos, desobrigando os demais de qualquer exigência sobre si mesmos. O herói resolve; eu assisto, aplaudo, curto e compartilho. E sigo avançando sobre o sinal vermelho.

É uma operação simples. E completamente desonesta.

O herói de ninguém da canção do Rush funciona como antídoto a essa operação. Ele não foi embalado para vender. Não tem marca, não tem social media, não tem assessoria de imprensa. Viveu do jeito que achou certo, sem audiência, e foi embora. É justamente por isso que incomoda — e por isso ensina mais do que qualquer livro de liderança com título em caixa alta.

O que me leva ao segundo problema: onde buscamos sabedoria.

Há uma hierarquia tácita e bastante arbitrária entre fontes de conhecimento. Livros de não ficção com prefácio de gente famosa: legítimos. Artigos acadêmicos com metodologia: mais ainda. Best-sellers de aeroporto com título motivacional: tolerados, desde que com certa ironia. Letras de canção, poesia, ficção, cinema: entretenimento, no melhor dos casos.

Essa hierarquia é, para usar um eufemismo, uma bobagem.

Walter Benjamin tinha um nome para o fenômeno oposto: iluminação profana. A capacidade de encontrar verdade e densidade intelectual em objetos e experiências não consagrados — uma conversa de bar, uma cena banal, um verso de música popular. Benjamin não estava sendo condescendente com a cultura popular; estava sendo rigoroso com o conceito de sabedoria. Verdade não escolhe suporte nobre.

O Rush é um exemplo interessante precisamente porque não se encaixa bem em nenhuma caixa. É uma banda de alcance global — portanto não é underground nem nicho. Mas as letras de Neil Peart exigem do ouvinte uma atenção que a maioria reserva apenas para textos considerados sérios. Quem desenvolveu essa sensibilidade encontrou ali filosofia prática de primeira qualidade. Quem não desenvolveu ouviu apenas guitarra, baixo e bateria.

O problema, portanto, não é a fonte. É a postura de quem escuta.

Essa postura tem um nome mais simples do que iluminação profana: atenção. A disposição de perguntar, diante de qualquer coisa — uma canção, uma fala casual, um filme menor, um verso grafitado numa parede — o que isso está dizendo que eu ainda não ouvi direito? É o oposto do consumo passivo, que é o modo padrão em que a maioria de nós processa a maior parte das coisas.

Best-sellers não são, por definição, rasos. Alguns são excelentes. Mas o fato de terem sido embalados, promovidos e validados pelo mercado não os torna mais confiáveis do que um verso que ninguém citou no Instagram ou no TikTok. O mercado editorial é muito eficiente em identificar o que vende, mas é notoriamente ineficiente em identificar o que é verdadeiro.

Há uma simetria entre os dois artigos que só percebi enquanto escrevia este. O herói de ninguém da canção do Rush e a sabedoria de lugar nenhum do argumento são a mesma coisa vista de ângulos diferentes. Ambos existem fora do holofote. Ambos exigem do observador uma disposição que o espetáculo não cultiva — a de prestar atenção ao que não foi embalado para chamar atenção.

E ambos remetem à mesma postura cívica: a do cidadão que age sem audiência, que paga o preço sem contabilizar o custo, que não precisa de herói porque já decidiu ser, no seu âmbito mínimo, uma pessoa íntegra.

Talvez seja nisso que consiste o que chamei, noutro texto, de ser educado para a sensibilidade. Não é apenas saber o que é certo. É saber reconhecer, onde quer que apareça — num verso, num gesto anônimo, numa rua vazia às três da manhã — o sinal de que alguém, em algum momento, decidiu pagar o preço.

Sem contar o custo. Sem esperar o holofote.

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