O inferno do real e o paraíso da ilusão

Pandemonium (1841), de John Martin. Óleo sobre tela, 123 x 185 cm. Louvre, Paris. Baseado em Paraíso Perdido, de John Milton, onde Pandemonium é a capital do Inferno. Wikimedia.
“Melhor reinar no Inferno do que servir no Céu”, diz Satã em Paraíso Perdido. O verso atravessou séculos porque toca num nervo exposto da condição humana: a recusa da submissão, mesmo quando ela se disfarça de salvação. No entanto, talvez o drama do nosso tempo não seja mais o de escolher entre Céu e Inferno, mas entre realidade e ilusão.
Vivemos numa era em que o paraíso é oferecido em versões simplificadas, portáteis e emocionalmente confortáveis. Ele vem embalado como religião sem transcendência crítica, política sem complexidade, moral sem dúvida. Um paraíso que exige pouco: apenas obediência, identificação tribal e a suspensão do pensamento. Em troca, oferece pertencimento, certezas prontas e inimigos bem definidos. É a esse paraíso que muitos hoje servem com fervor.
Minha paráfrase do verso de Milton — “Antes reinar no inferno da realidade a servir no paraíso da ilusão” — não busca glorificar o inferno, mas denunciar o preço da ilusão. O inferno do real é incômodo: ele exige mediações, contradições, limites institucionais, ciência, linguagem cuidadosa, política como conflito regulado. Não promete redenção fácil nem vitórias morais absolutas. Ele frustra — e exatamente por isso educa.
O paraíso da ilusão, ao contrário, é sedutor porque infantiliza. Ele transforma fé em arma, identidade em trincheira e opinião em dogma. Não quer compreender o mundo, mas reduzi-lo a slogans digeríveis. É aí que religião e política passam a operar de modo semelhante: não como busca de sentido ou justiça, mas como máquinas de adesão afetiva.
O novo fascismo prospera nesse terreno. Donald Trump não é a causa, mas o sintoma mais ruidoso de uma lógica que despreza a razão, ridiculariza a complexidade e substitui o debate por espetáculo moral. Não importa se a afirmação é verdadeira; importa se ela reafirma o grupo. Não importa se a realidade é dura; importa que a ilusão seja reconfortante.
Servir nesse paraíso é abdicar da responsabilidade adulta de pensar. É trocar a cidadania pela devoção. É confundir crítica com traição e dúvida com fraqueza. Nesse contexto, “servir” deixa de ser um gesto ético e passa a ser submissão voluntária à mentira compartilhada.
Escolher o inferno da realidade, portanto, não é um gesto heroico — é um gesto mínimo de lucidez. Significa aceitar que não há salvação sem conflito, nem justiça sem instituições imperfeitas, nem democracia sem frustração. Significa recusar o consolo da mentira, mesmo quando ela vem envolta em símbolos sagrados ou bandeiras nacionais.
Talvez Milton tenha mostrado, sem querer, algo ainda mais perturbador: o problema não é o Inferno. O problema é quando ele se apresenta como Paraíso.
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